Bem vindo a Albufeira. Importas-te de te despir?
A Câmara Municipal precisa de cobrar multas, para construir mais 4 rotundas.
Há qualquer coisa de profundamente honesto naquele cartaz à entrada de Albufeira, a avisar os turistas. A câmara municipal tem a delicadeza de te avisar, logo à chegada, que estás sob videovigilância 24 horas — e depois, no mesmo fôlego, diz-te para desfrutares da estadia.
É como quanto a polícia te prende, te atira para uma cela fria e húmida, mas te serve café e donuts, enquanto esperas para ser espancado. Com uma linda rosa vermelha, para dar um ar romântico. Bons tempos.
Em Albufeira, a lista de proibições é curta mas cirúrgica: sem fato de banho na rua, sem nudez, sem álcool em espaço público. Coima entre 150 e 4.000 euros. Ou seja, vieste de Birmingham ou de Düsseldorf, pagaste o voo, o hotel, o transfer, o gelado de três euros e meio na Praia dos Pescadores — e agora há um funcionário municipal com uma prancheta na mão e um Mestrado em Administração Pública que te vai cobrar 4.000 euros por teres um copo na mão, ou porque um imigrante magrebino te roubou a t-shirt na praia.
Mas espera. Antes de continuar com esta alegoria de costumes, precisamos de falar do elefante na sala — a “CONSUMTION”, como se diz em Albufeira. Sem o P. “CONSUMTION” sem P, impresso em letras garrafais, provavelmente em dez mil exemplares espalhados pelo concelho.
Podemos ser analfabetos, mas mesmo assim temos mais força que tu, e vamos-te multar porque podemos.
Alguém na câmara de Albufeira fez a revisão, aprovou, mandou imprimir, recebeu a encomenda, e foi colocar os cartazes na rua — e durante todo este processo ninguém reparou. É o mesmo aparelho que te vai multar em 4.000 euros. Fica descansado, eles sabem o que fazem.
Hayek chamaria a isto a “servidão” de pequenos detalhes acumulados. Para mim, que lamentavelmente sou português, é simplesmente o modelo de negócio favorito do Estado: deixa entrar o turista, esgota-lhe a paciência, e cobra no fim.
O mais delicioso nesta aberração é a ordem das coisas no cartaz. Primeiro as boas-vindas, depois o aviso de câmeras, depois as proibições, depois a coima. É quase uma apresentação comercial. “Bem-vindo. Sorri para a câmara. Comporta-te. Paga.” Faltou só o QR code para o IBAN da câmara, para liquidar a coima voluntariamente, com um desconto de 10%.
E repara: o álcool não é proibido — ninguém aqui é puritano, e muitos funcionários municipais têm família a trabalhar nos bareálcool s - o que é proibido é “consumeer” em espaço público. Ou seja, podes beber o que quiseres, fazer as figurinhas que quiseres, gregoriar-te todo, tentar engatar gajas que são gajos, mas tens que o fazer num sítio “autorizado”. Talvez no pub do filho do Presidente da Câmara, ou de um outro familiar. Convenhamos que, a ser verdade, seria um esquema engenhoso para empurrar o consumo para os bares licenciados que têm que pagar à câmara as taxas e licenças que lhes permite estarem abertos. Rothbard tinha um nome para isto. Chamava-lhe cartelização apoiada no músculo estatal.
Mas nota: Albufeira não está a proteger nem a criminalizar ninguém. Está simplesmente a gerir fluxos logísticos, numa espécie de rotunda interminável. Os turistas que chegam às centenas de milhar durante o Verão são, na perspectiva municipal, uma matéria-prima que entra na máquina de montagem pela A22, e precisa de ser canalizada para os estabelecimentos certos, mantida dentro de parâmetros aceitáveis, utilizada para extrair o seu valor, e os resíduos levados e exportados de volta para o aeroporto, sem criar problemas políticos, e maximizando o lucro.
Mas nota: Albufeira não está a proteger nem a criminalizar ninguém. Está simplesmente a gerir fluxos logísticos, numa espécie de rotunda interminável. Os turistas que chegam às centenas de milhar durante o Verão são, na perspectiva municipal, uma matéria-prima que entra na máquina de montagem pela A22, e precisa de ser canalizada para os estabelecimentos certos, mantida dentro de parâmetros aceitáveis, utilizada para extrair o seu valor, e os resíduos levados e exportados de volta para o aeroporto, sem criar problemas políticos, e maximizando o lucro.
O cartaz é logística, não moral. Não és tu, somos nós. Nós é que queremos ficar com todos os euros ou libras que trouxeres na carteira.
No fundo, é sempre a mesma história. O parasita não te odeia — precisa de ti. Precisa que chegues, que gastes, que te comportes, e que vás embora sem perceber que foste ordenhado do aeroporto ao hotel e do hotel à multa. A câmara de Albufeira, como qualquer outra câmara deste país, não existe para te servir. Existe para se servir de ti.
O Estado não tem problema com o teu corpo nem com o teu copo. Tem problema é se não te conseguir sacar dinheiro por simplesmente estares a fazer o que queres, onde queres.
Se isto te soa familiar — e devia — vai a partidolibertario.pt. Pelo menos lá ninguém te cobra 4.000 euros por leres um cartaz com um erro de ortografia.





