Fui ver Cure, saiu-me o The Wall.
O North Festival é uma fraude em tamanho 40000 XL
Roger Waters passou a vida a avisar-nos. Em 1977, no álbum Animals, dividiu a humanidade em três categorias: porcos, caẽs e ovelhas. Os porcos são as elites que controlam o sistema. Os cães são os executivos agressivos, que querem aspirar a ser porcos, e as ovelhas — as ovelhas somos nós, os restantes, que seguimos em fila, pacificamente, para onde nos mandam. No domingo à noite, no Estádio da Maia, fui ver os Cure e percebi que afinal tinha ido ver The Wall.
Não foi por acaso que o pensamento me ocorreu. Quarenta mil pessoas a entrar por portões contados, em fila, a caminho de um espaço fechado onde não podiam trazer comida, não podiam sair e voltar, e onde teriam de consumir segundo as regras estabelecidas por quem controlava o recinto, os cães, segundo as ordens da organização, os porcos. Roger Waters não precisava de escrita criativa. Precisava de um bilhete para o North Festival. Welcome to the Machine.
A organização prometia “mais espaço, maior conforto, acessos simplificados”. Estas promessas foram escritas num universo paralelo onde iam vender 30.000 bilhetes. Apareceram 40.000, e entraram. Pelos vistos tinham bilhetes. Quem fez as contas devia ter o ábaco avariado. Ou então percebeu que 30.000 não pagava o cachet, e teve que vender mais uns bilhetes. Porcos.
Na minha zona, contei seis ou sete pessoas a passar mal. Não foi excesso de entusiasmo nem álcool em excesso. Foi simplesmente não haver ar, nem saída, nem espaço para um ser humano. Para quem entrou às 4 da tarde e saiu às 2 da manhã, apenas dependente da comida dentro do recinto, o inferno seria um local bem mais tranquilo. A segurança estava presente em número suficiente para criar fricção mas insuficiente para criar ordem. Eram privados, mas devem ter tido formação no Estado português — esta é, no fundo, a definição operacional do Estado português em praticamente todos os sectores da vida nacional.
“Num festival, como no Estado, a classe dirigente tem sempre uma zona VIP — e alguém pago para guardar o muro.”
Falando em muros: as bancadas eram a zona VIP. VIP, no sentido em que os bilhetes eram mais caros. Havia alguns seguranças nos acessos, que deixavam entrar apenas quem tinha uma pulseira. Até aqui, tudo certo. O problema foi que um dos “Assistentes”, como dizia a sua farda, achou que, talvez ainda a cumprir as normas da DGS para o Covid, era necessário impor “um perímetro” de segurança.
As ovelhinhas que não tinham aspiração a VIP (mas que pagaram bilhete na mesma), não podiam sequer aproximar-se do muro (vá, murete, dava-me pelos joelhos) que separava o relvado (onde pastam as ovelhas) das bancadas (onde os VIP se regalam com bancos de cimento da melhor qualidade, importados directamente da Abissínia. Este “Assistente”, munido de uma lanterna, deve ter achado que tinha que salvar os VIP da ralé, e por isso mesmo apontava a lanterna a quem sequer se aproximasse do muro. Momma’s gonna help build the wall.
Ao contrário do Velho da Cena 24, no Holy Grail dos Monty Python, que apenas deixava passar quem sabia responder às perguntas “qual a capital da Assíria”, ou “qual a tua banda preferida”, o Homem-Lanterna — foi a alcunha rápida que lhe demos — não fazia perguntas. Ele tinha ordens. E não há nada mais perigoso que um bronco com ordens imbecis. Veja-se o já citado Covid.
Talvez por ainda ser recomendado o cumprimento das “Normas da DGS” neste estádio (prova junta), o Homem-Lanterna sempre que via alguém aproximar-se do muro, saltava do alto da bancada, onde controlava o gado, e apontava a sua famigerada lanterna na cara das pessoas que tinham comprado bilhete, mas que não mereciam tratamento VIP.
As ordens, escritas em duas lápides de pedra, e trazidas especialmente do Sinai diziam que ninguém se podia encostar ao muro que separava os VIP do gado, mesmo do lado do relvado, mesmo com bilhete pago, mesmo sem estar a incomodar absolutamente ninguém. A lanterna na cara, o tom de quem cumpre as ordens e a satisfação de saber que se falecesse nesta Jihad, 20 virgens o esperariam no Além.
Obviamente, mandei-o educadamente desenroscar a cabecinha de dentro do seu próprio ânus (tendo cuidado ao fazer passar as orelhas), que tinha bilhete, que era livre de me apoiar onde quisesse dentro do espaço pelo qual paguei, e que se discordasse, e me quisesse tirar de cima do muro, podia chamar a polícia para me tirar. Hey, Lantern-Man, leave them kids alone
A polícia, sendo portuguesa, e não estando envolvidos “grupos protegidos” contra discriminação, deve ter vindo “logo”. Apenas eu já estava em Lisboa, quando chegou.
Mas isto são, como dizia um amigo meu com cinco anos de francês na escola pública, “fat-divers”. O melhor estava guardado para o sistema de pagamento. Querendo aproveitar as melhores buzzwords do momento, e basicamente praticar fraude financeira, os porcos que geriam o festival, decidiram implementar…
o cashless.
A possibilidade e vontade de controlar os movimentos financeiros das ovelhas é uma aspiração de longa data dos porcos. Claro que num festival, ou qualquer outro local fechado, se se pretende que não haja dinheiro vivo “por causa dos trocos”, a solução é simples: aceitar apenas Multibanco, Visa ou Mastercard. A solução existe e é simples, e seria facilmente aceite por todos os envolvidos. Todos temos cartões, e mesmo até no telemóvel é possível usar.
Portanto… porquê inventar? Explico: Ao entrar no recinto — onde, recorde-se, não podes trazer comida de fora — descobres que o dinheiro não existe. É “cashless”. Existe um cartão especial. Um sistema… paralelo. Para obter esse cartão, vais ao multibanco (fila generosa abaixo), pagas 1,49€ de “activação”, e carregas o cartão para este sistema paralelo com o valor que entenderes. Hanging on in quiet desperation is the English way
Depois usas esse cartão para pagar cervejas e merchandising dos artistas. Apenas cervejas e merchandising de artistas.
Se chegares ao fim do festival e sobrar lá dinheiro, parabéns, acabaste de contribuir para o fundo de maneio da Organização dos Porcos Organizadores de Festivais. O cartão não é reembolsável se sobrar saldo. O que sobrar fica na empresa. Sem discussão, e sem apelo. É roubo? É, mas eles avisaram antes. If you don't eat yer meat, you can't have any pudding.
Para quê inventar um esquema paralelo de pagamento de apenas duas categorias? Bebidas a copo e merchandising dos artistas?
Repara no detalhe revelador: a comida das empresas concessionárias — os food trucks, os stands de restauração — não tinha cashless. Aceitavam cartão normal (que também é cashless) e dinheiro vivo. Porquê? Porque essas empresas têm os seus próprios sistemas de facturação, as suas próprias obrigações fiscais. Propor-lhes o cashless teria sido convidá-las a ser cúmplices de qualquer coisa que, claramente, preferiram não ser. Recusaram. E isso diz tudo sobre o que o sistema cashless é, na verdade.
O cashless no North Festival é uma fraude de fuga ao fisco.
Apresentas-te ao bar, o cartão é debitado, e o preço inclui IVA, achas tu (na verdade não queres saber, como em tudo o resto, mas segue o raciocínio), mas as transacções correm por um sistema interno que não presta contas a ninguém. O dinheiro entrou. O IVA foi cobrado ao consumidor. Para onde vai esse IVA? Boa pergunta. Pergunta sem resposta no recibo, porque não há recibo.
“Cobrar o IVA ao consumidor sem o entregar ao Estado não é fuga ao fisco. É um roubo ao consumidor vestido de fuga ao fisco.”
Devo ser claro quanto à minha posição moral. Tenho zero objecções à fuga ao fisco. Nenhuma, mesmo. O Estado português consome mais de 44% do produto interno bruto para nos oferecer grátis uma saúde que não funciona, uma educação que piora continuadamente, e normas da DGS que servem para colocar em causa a sanidade mental de quem as emite, e aparentemente formação a seguranças de festival que iluminam pessoas encostadas a muros.
Se alguém encontra forma criativa de não financiar este Leviatã, tem a minha admiração sincera, e no fundo é essa a base de toda a argumentação política do Partido Libertário. Retirar impostos ao Estado é a forma de reduzir o Estado. Isto dá mais dinheiro às pessoas para fazer o que quiserem, e usarem em bons serviços de saúde, educação, etc.
O problema aqui é outro, no entanto, e é mais grave.
Quando uma empresa cobra IVA ao consumidor — como alegadamente aconteceu em cada copo de cerveja vendido naquele recinto — esse dinheiro não é da empresa. A empresa é apenas o Cobrador de Impostos, que cobra em nome do Estado. Continuas a roubar as pessoas, desta vez para teu próprio benefício, e nem uma ligadura ou uma borracha “grátis” dás em troca, como o Estado alega que faz.
Se a empresa cobra o IVA e não o entrega ao Estado, fez duas coisas em simultâneo: fugiu ao fisco (aplauso) mas também roubou o consumidor (condenação total). Porque o consumidor pagou o imposto. E 39.999 pessoas ontem pagaram esses impostos (eu não paguei, porque obviamente preferi beber água das garrafas que levei nos bolsos do que aderir ao “cashless”).
Mas esse dinheiro ficou no bolso de quem teve a astúcia de se fazer passar pelo Estado para o cobrar, e a lata de não o entregar a ninguém. Why Can’t I Be You?
Isto não é ser esperto. Ou melhor, é ser Esperto, mas apenas se te chamares Chico. Nem sequer é ser um porco, dos que falavam os Floyd. É seres um cão, mas teres nascido Chihuahua com um problema de raquitismo, a identificar-te como um Grand Danois. É achares que podes ser um Gatuno tão bom como o Estado, mas sem teres que pagar à Polícia para impor as tuas leis. É extrair dinheiro das pessoas por meios que elas não controlam, oferecendo em troca uma montanha de nada, e convencer as pessoas que elas é que escolheram receber uma montanha de nada em troca. Bastiat chamaria a isto pilhagem.
Esta pilhagem tem melhor banda sonora, mas é pilhagem na mesma.
A música foi boa, mas eu não gosto de Cure. Sentado em cima do muro, vi um bom concerto. Pena não ter havido stage diving. O Robert Smith está a ficar velho.
Se achas que Portugal precisa de menos Chicos Espertos — dentro e fora do Estado — e de mais pessoas dispostas a dizer isso em voz alta, o Partido Libertário está a ser construído agora. Com a tua assinatura.
partidolibertario.pt





