Guerra, mas com boas maneiras
Um fato bem passado é mais perigoso que um brutamontes honesto
Há uma diferença curiosa entre um assaltante de esquina e um banqueiro que te tenta vender um produto tóxico: o primeiro aponta-te uma faca e diz “dá-me a carteira”. O segundo oferece-te café, sorri, chama-te “cliente valorizado” e entrega-te um contrato de 43 páginas com letra miudinha que ninguém vai ler.
No fim, ambos ficam com o teu dinheiro. Mas um deles usa gravata.
Foste roubado, mas com boas maneiras.
Quando Obama decidiu bombardear a Líbia, não disse que o fazia por petróleo, por poder ou por interesses sujos. Claro que não. Foi por “intervenção humanitária”. “Proteção de civis”. “Responsabilidade de proteger”. Frases bonitas, sintaxe impecável, factos apresentados com o ar grave de quem está a salvar a humanidade.
O que aconteceu? A Líbia colapsou e transformou-se num buraco negro. Mercados de escravos a céu aberto. Caos, milícias, miséria. Mas o discurso era tão elegante que era impossível não concordar. Até tinha o Prémio Nobel da Paz lá atrás, quietinho na prateleira enquanto os drones matavam crianças indiscriminadamente.
Agora comparem com o outro babuíno. Trump bombardeia e não engana ninguém: é pelo petróleo. Ou por Israel, consoante o dia. Sem floreados, sem poemas sobre o fardo do homem branco civilizado. Bruto, sem maneiras? Sim. Mas mais honesto sobre qual o verdadeiro papel do Império? Também.
Isto não é uma defesa de Trump.
A honestidade de um ladrão não transforma o roubo em virtude.
Mas há qualquer coisa de revelador quando o homem considerado mal-educado tem uma descrição mais próxima da realidade do que aqueles que falavam como professores universitários numa conferência da ONU.
O grande perigo nunca foi apenas o político que mente de forma grosseira.
O maior perigo é o político que consegue transformar violência em altruísmo através de um comunicado de imprensa, porque a mentira com boas maneiras é sempre mais perigosa.
Rothbard chamaria a isto o Estado a usar a ideologia como anestesia. Hayek dir-te-ia que o caminho para o inferno está repleto de planificadores centrais super bem intencionados. Ambos teriam razão, mas nenhum deles imaginou que o planificador-mor iria ganhar um Prémio Nobel da Paz antes de decretar a Guerra.
A mentira com boas maneiras é mais perigosa do que o brutamontes que está actualmente no cargo. Porque a mentira educada atravessa gerações sem levantar suspeitas. Instala-se nas instituições, nos manuais escolares, nas conferências de imprensa com perguntas previamente aprovadas.
Reconheces o padrão, não reconheces? "Dois metros de distância salvam vidas." "As vacinas impedem a transmissão”. "Os modelos computacionais nunca falham", "Fique em casa, proteja o SNS, salve vidas" — enquanto os ginásios fechavam e as enfermarias esvaziavam. A linguagem era sempre de uma assepsia clínica reconfortante. Os fatos e os “factos” metaforicamente bem passados, os gráficos a cores vivas, os especialistas apresentados como se fossem Moisés a descer do Sinai com injecções em vez de tábuas de pedra. E quem duvidasse era negacionista, irresponsável, um perigo público.
Ou quando nos garantem que o clima vai acabar com o planeta em doze anos (ou talvez dez, andam sempre a mudar a data do Apocalipse) e que a solução é dar mais poder ao Estado, mais impostos, mais regulamentação, mais subsídios aos amigos do regime. Sempre com o ar de quem está a salvar as criancinhas e os ursinhos polares. Enquanto isso, os mesmos que gritam “emergência climática” voam em jatos privados para conferências sobre o clima.
A guerra na Ucrânia oferece outro exemplar perfeito desta gramática. "Democracia contra autocracia." "Valores ocidentais." "A ordem internacional baseada em regras." Dito com solenidade suficiente para que ninguém pergunte: que regras? Feitas por quem? Aplicadas a quem? As mesmas que justificaram o Kosovo, o Iraque, a Líbia, o Afeganistão? O dicionário é reciclado com uma eficiência que a separação de resíduos domésticos nunca vai atingir. E os aviões de carga com armamento seguem para o mesmo destino que antes seguia o petróleo — apenas com diferente etiqueta alfandegária.
A frase muda. O mecanismo permanece.
Quem questiona uma guerra é acusado de servir o inimigo. Quem questiona uma política sanitária é apresentado como um perigo público. Quem pergunta quanto custa uma determinada cruzada ambiental é tratado como um herege que nega uma verdade revelada.
O argumento raramente é: “aqui estão os custos, aqui estão os benefícios, vamos discutir como adultos”.
Não.
A nova religião política tem os seus sacerdotes, os seus dogmas, os seus pecados e as suas excomunhões sociais. Apenas trocou os altares antigos pelos estúdios de televisão, pelas conferências internacionais e pelos departamentos de comunicação dos governos. São mecanismos aplicados durante séculos.
Rothbard avisava: o Estado não é uma entidade benevolente que por acaso falha. É uma organização que vive de coerção e mentira sistemática.
Hayek falava do conhecimento disperso que os planificadores centrais nunca terão.
Mises desmontava a ilusão socialista disfarçada de humanismo.
Todos eles, à sua maneira, apontavam o mesmo: o poder que se apresenta como salvador é sempre o maior perigo.
Em Portugal não é diferente. Todos os partidos são socialistas no fundo: nenhum quer baixar impostos a sério, nenhum quer encolher o Estado, todos querem mais controle “pelo bem comum”.
Por isso todos querem manter-se na União Europeia. Sabem que apenas o dinheiro grátis vai permitindo fazer de conta que estas políticas são viáveis, ao mesmo tempo que levam várias gerações à pobreza.
A diferença entre os partidos portugueses é o verniz. Uns usam a linguagem progressista, outros a conservadora. O resultado é sempre o mesmo: mais algemas, mais impostos, menos liberdade. Mas sempre com um sorriso nos lábios.
A virtude do bruto honesto — e aqui terminam os elogios ao Trump, que é apenas esta frase — é que pelo menos revela o mecanismo. Quando diz “é pelo petróleo”, está inadvertidamente a oferecer um serviço público. Está a mostrar a estrutura por baixo do discurso. É como um ilusionista descuidado que deixa ver o que tem dentro da manga. Não é educativo por mérito próprio. É educativo porque nos permite ver para lá da ilusão.
A lição não é votar no bruto. A lição é desconfiar sistematicamente do polido. Do especialista que nunca se engana e que nunca se responsabiliza. Do político que fala de sacrifícios enquanto usa um Airbus do Estado para ir ver um jogo da bola. Da instituição que exige transparência dos cidadãos e opacidade (perdão, confidencialidade) para si mesma. De qualquer narrativa que chegue pré-embrulhada num consenso científico, solidariedade internacional, e uma data limite para obedecer sem perguntas.
A mentira com boas maneiras já destruiu mais países do que qualquer tirano raivoso. Porque o tirano raivoso é fácil de reconher. A mentira educada candidata-se a presidente da câmara, ganha prémios literários, e é convidada para comentar o noticiário da noite.
A mentira polida matou mais do que a verdade bruta alguma vez matará.
Está na hora de parar de aplaudir o fato bem engomado enquanto as bombas — e as Liberdades — caem.
Se estás farto desta pantomima, se queres um caminho que não seja mais Estado, mais impostos, mais mentiras com laço, junta-te a nós. Assina pela criação do Partido Libertário em Portugal. Visita partidolibertario.pt. Não é por um partido. É pela possibilidade de um país que não te trate como gado para ser tosquiado e pastoreado






