O calor tem as costas largas
A culpa é invariavelmente do Estado, mas o "calor extremo" é uma excelente desculpa.
Esta semana o calor foi condenado, no tribunal mediático português, por praticamente todos os crimes cometidos em nome do Estado.
Os carris “dilataram” e a CP cancelou seis Intercidades, como se os comboios portugueses fossem feitos de manteiga e não andassem, noutros países bem mais quentes, a temperaturas iguais ou piores, há décadas.
A Proteção Civil mandou um SMS a avisar do "risco de incêndio", aviso extremamente útil e serve também, já agora, de mapa de calor em tempo real para qualquer pirómano com um isqueiro e más intenções — obrigado, Estado, por avisar todos ao mesmo tempo, incluindo quem quer pegar fogo.
E agora, já sabes, Almada ficou sem água. O calor, coitado, aguenta isto tudo às costas: os carris que ninguém pintou de branco, os comboios com ar condicionado desatualizado, os furos de água que ninguém abriu a tempo. O calor tem as costas largas — e o Estado adora encostar-se a elas.
A realidade é bastante diferente do que aparece nas notícias, no entanto. Vejamos o que a Câmara Municipal de Almada publicou, orgulhosa, no Instagram, como quem mostra um boletim de notas: Charneca da Caparica, mais 15,2% de consumo. Sobreda, mais 15%. Costa da Caparica, mais 14,2%. Números redondos, gráficos bonitos, tipografia azul institucional. “Nem todo o concelho pesa da mesma forma”, dizem eles, com aquele ar analítico de quem acabou de descobrir a pólvora. E no slide seguinte, mais detalhe ainda: a zona da Charneca e da Sobreda já representa 32% de todo o consumo de água do concelho, com mais 370 mil metros cúbicos só no primeiro semestre. Já agora, pela primeira vez, o Cassapo ultrapassou o Pragal e Brielas. A Câmara sabe isto ao pormenor do metro cúbico e da freguesia. Tem os dados todos. Tem os dados desde sempre. Mas só agora é que reparou.
E é aqui que a coisa cheira mesmo mal: se a Câmara sabe, com esta precisão cirúrgica, quais as freguesias que estão a crescer a dois dígitos há tempo suficiente para produzir um infográfico completo com séries históricas — então sabia disto antes do calor apertar. Isto não caiu do céu ontem. Isto é a Charneca da Caparica e a Sobreda a encherem-se de gente e de casas há anos, um crescimento demográfico e urbanístico previsível, mapeável, mensurável — e que a autarquia só decidiu “resolver” com furos novos depois de ter vídeos, durante semanas, de gente sem água a correr nas redes sociais. Não foram as alterações climáticas que fizeram isto. Foi gente a mais e planeamento a menos. E esta explosão demográfica também é da culpa do Estado, que decidiu importar engenheiros e neurocirurgiões para nos pagar o SNS, e para nos entregar hambúrgueres em casa.
E já que falamos de gente que devia ter feito o trabalho de casa e não fez: pseudo-jornalistas da SIC, este parágrafo é para vós. Chamaram a isto “calor extremo” a deixar a cidade sem água, como se o sol tivesse decidido, sozinho, sabotar a rede de canalização de Almada. Bastava-vos um telefonema, uma pesquisa de trinta segundos, ou — segredo dos segredos — ler o Instagram da própria Câmara, para descobrirem que a explicação não é meteorológica, é demográfica: mais gente a viver e a passar férias nestas freguesias, ano após ano, com o mesmo sistema de furos de sempre. Mas não só esta narrativa não vos interessa divulgar (porque são cúmplices dela), mas também é verdade que não podem pôr em causa o “excelente” trabalho do estadinho, ou podem ficar sem os subsídios que vos pagam as contas ao final do mês.
Efectivamente, é muito mais fácil escrever “calor extremo” na manchete e poupar o trabalho de investigar. O calor tem as costas largas, e o estadinho é que vos paga o ordenado, agora que ninguém compra os vossos pasquins. Parem lá com isso, meninos do telejornal, porque assim não precisamos do Jornal do Incrível — já vos temos vocês a inventar causas sobrenaturais para problemas de gestão municipal perfeitamente terrenos e perfeitamente prevísiveis.
Agora, o ponto que é tão óbvio que nos esquecemos que podia ser diferente: a água em Portugal é, do princípio ao fim, um monopólio estatal. Não há concorrência. Não há operador privado a quem possas ligar e dizer “os SMAS falharam-me, vou para outro fornecedor”. Não podes. Nunca pudeste. A câmara municipal decide quando e quanta água podes ter em casa. Desde 1951, sem nenhuma alternativa para o cidadão. E o resultado de setenta e cinco anos de monopólio sem concorrência está bem à vista: um sistema que não conseguiu prever o óbvio, porque nunca precisou de prever nada — não tem concorrente a roubar-lhe clientes insatisfeitos, não tem lucro a perder, não tem consequência real nenhuma além de um pedido de desculpa em rádio pública.
“E no entanto, move-se”. Foi precisamente aqui, no vazio deixado por este monopólio estatal, que aparece o Raul José Pinto, o “Pequeno Agricultor”, a organizar por conta própria a distribuição de água na Costa da Caparica, a começar pelo Bairro Campo da Bola. Um cidadão. Particular, obviamente. A oferecer água do seu próprio furo! Sem departamento de comunicação, sem infográfico azul, sem conta de Instagram. Viu gente com sede e resolveu o problema mais depressa do que o aparelho inteiro do Estado.
Isto não é anedota, é a prova viva daquilo que a teoria diz há mais de cem anos: quando tiras o monopólio da equação, mesmo que só por um bocadinho, mesmo informalmente, a ação voluntária resolve o problema real mais depressa do que qualquer plano central. Nunca tinha havido, em Almada, um privado a distribuir água — apenas porque a lei nunca deixou nascer esse mercado. Bastou o Estado falhar tão feio que um agricultor teve de fazer o trabalho por ele.
Costuma-se perguntar, nos meios libertários “sem o estadinho, quem iria construir as estradas?”, porque as pessoas que sofrem de estadite (provocado por consumo excessivo de socialismo) não conseguem sequer imaginar quem poderia criar bens comuns. Hoje, a resposta a esta pergunta ficou clara. O Raul José Pinto iria construir as estradas. Ou ele, ou todas as pessoas que precisassem dessas estradas para trabalhar e ganhar dinheiro. Um pouco como os supermercados constroem as estradas à sua volta.
O Ludwig von Mises explicou isto com o nome de cálculo económico: sem preços de mercado a refletir escassez real, ninguém — nem o funcionário mais bem-intencionado do mundo — consegue calcular racionalmente onde investir, quando furar, quanto poupar. Não é opinião política, é lógica aplicada à ação humana, praxeologia pura: a acção livre dos indivíduos a responder a necessidades concretas coordena-se melhor do que um comité a decidir por decreto quem é que pode tomar banho hoje à noite. O Hayek chamava a isto conhecimento disperso — ninguém no topo de uma câmara municipal sabe, ao minuto, quem precisa de água numa rua específica; um vizinho, sim, sabe.
Entretanto, pelo “modelo democrático”, deves estar a pensar que se fosse outro partido a gerir esta câmara isto seria diferente? Errado.
PS, PSD, Chega, BE, Livre — nenhum deles questiona o modelo, só discutem a cor da bandeira em cima do mesmo cano. Nenhum propõe abrir isto à concorrência, deixar entrar capital privado a competir por te servir melhor. Porque no fundo, apesar dos discursos diferentes, todos acreditam na mesma coisa: que o estadinho deve continuar dono da torneira, e nenhum, em circunstância nenhuma, baixa um imposto a sério.
Duvidas? Pensa que se fosse diferente, todos eles ficavam sem trabalho, e sem subsistência, porque são todos parasitas do mesmo hospedeiro — tu — a discutir apenas quem fica com a fatia maior do roubo.
A máxima é esta: quem tem um monopólio nunca precisa de prever ou optimizar nada, porque a conta chega sempre a quem não pode escolher.
E se sentires, no meio disto tudo, apesar do “calor extremo” um arrepio, por perceberes que vives dentro de uma estrutura que decide por ti o acesso a coisas tão básicas como água — não é imaginação. É só o véu a ficar, por instantes, mais fino do que devia, deixando ver a arquitetura de controlo por trás do infográfico azul bonito.
A solução não é mais um furo aprovado tarde, nem mais um comunicado com a palavra “solidária” lá dentro. É tirar o monopólio das mãos de quem só se mexe depois de aparecer na SIC, e deixar que gente como o Raul José Pinto, e mercados reais, façam o que já provaram fazer melhor: resolver o problema antes de ele virar manchete. Se achas que já bebeste água a mais desta gestão solidária e rotativa, sabes onde assinar: partidolibertario.pt. Vai lá antes que decidam racionar-te também a paciência.




