O país que vive na bancada.
Pão e circo; Fado Futebol e Fátima; PS ou PSD? Isto é Portugal.
Portugal sai do Mundial exactamente como entrou: com muita fé, com muita emoção… e com uma explicação pronta. Nunca falha. Somos um país de derrotados, mas derrotados sonhadores, convencidos de que, desta vez, vai ser diferente — e quando não é, garantimos que a culpa é de alguém perfeitamente conveniente.
Nunca é o “salvador” que endeusámos durante meses que nos falha. É do espanhol. É dos dirigentes. É do árbitro. É do VAR. É da relva, do vento, do alinhamento dos astros. É dos outros. Tudo menos de quem manda ou de como o sistema está montado.
E isso diz muito mais sobre nós do que apenas sobre o futebol.
Somos um país que acredita religiosamente, até ao último minuto, que virá sempre alguém resolver. Nós é que não. E quando esse alguém não resolve, há sempre uma explicação externa, um inimigo útil, uma narrativa confortável. A culpa nunca é estrutural — porque isso obrigava a pensar. E obrigava a deixar de ser um covarde acomodado.
Pelo menos podemos votar, dizem alguns. Como se o problema fosse apenas escolher nomes diferentes para operar exatamente o mesmo sistema de incentivos.
E aqui começa o ponto essencial.
O futebol é um circo — não por acaso, mas por desenho.
Na Roma antiga, Juvenal já tinha topado o padrão: pão e circo. Tudo o que povo precisa para não refilar muito. Hoje o pão está mais caro e tem sementes e massa mãe, o circo é mais sofisticado e transmitido em directo, em 4K, mas a função é exatamente a mesma. Distracção, catarse, alívio. Um escape para quem passa a vida a pagar as contas dos outros.
E em Portugal refinámos a fórmula: Fado, Futebol e Fátima. Não porque sejam coisas negativas em si, mas porque juntas funcionam como anestesia cultural perfeita. Enquanto se discute a convocatória, ninguém discute a carga fiscal. Enquanto se festeja um golo, ninguém pergunta porque é que abrir um negócio continua a parecer um teste de resistência.
Agora pensa nisto com honestidade:
Porque é que não há duas seleções nacionais a competir entre si para decidir quem vai ao Mundial?
Parece absurdo? Claro que sim. Mas só parece absurdo porque foste treinado a aceitar monopólios como naturais.
Só há uma federação.
Só há uma seleção.
Só há uma versão “oficial” de Portugal.
E tens de gostar. É essa e mais nenhuma. E os teus instintos tribais vêm ao de cima e apoias incondicionalmente. Até porque tens uma excelente desculpa para beber mais cerveja do que o habitual no dia do jogo.
Agora muda o contexto:
Porque é que só as câmaras municipais nos podem fornecer água canalizada?
Porque é que só o Estado decide quem pode construir estradas — mesmo com dinheiro privado?
Porque é que os comboios são maus… e continuam a ser um sorvedouro de dinheiro?
Porque é que precisamos de uma companhia aérea mais cara e menos flexível do que as outras?
Porque é que a saúde pública é um desastre e quem pode foge para o privado?
Porque é que os pais pagam impostos para uma educação fraca… e depois pagam outra vez para dar uma hipótese real aos filhos?
Tudo vem do mesmo sítio.
São todos monopólios protegidos pelo Estado.
No futebol, o efeito é visível porque dói.
No resto da vida, o efeito é silencioso — mas sai-te do bolso.
E depois há aquela comparação de quem todos falam, mas que ninguém entende porque foram educados apenas pela escola pública:
Os jogadores jogam bem nos clubes — que são privados, competitivos, exigentes. Recebem milhões porque produzem valor. Quando falham ou deixam de render, são substituídos. Se rendem, ficam.
Então e na selecção?
Arrastam-se. Menos intensidade, menos risco, menos consequência.
Porquê?
Porque o sistema muda. Porque na Selecção, se falhas, podes culpar tudo e todos, e podes vender a fé, num novo ciclo de esperança. Em 2030 é que vai ser, não foi?
Num clube, quando falhas, és despedido ou não renovas. E depois vais para um clube árabe que te paga principescamente, apenas porque basicamente não sabem sequer que a bola é redonda.
Isto não é uma questão de moral. É incentivo.
E a praxeologia não falha:
Sem concorrência, não tens pressão, sem pressão não melhoras.
Dizer que isto prova a superioridade da iniciativa privada não é ideologia — é observação. É olhar para incentivos e ver resultados. Como diria Thomas Sowell, não interessa o que parece justo ou bem-intencionado. Interessa o que funciona.
E o padrão repete-se em todo o lado.
No mercado, errar custa dinheiro.
No Estado, errar custa… ter que criar uma Comissão de Inquérito. E claro, mais orçamento. Porque no Estado, acreditam que a solução para todos os problemas é atirar dinheiro para cima.
A culpa, como numa sociedade anestesiada, nunca é dos responsáveis — porque os responsáveis são irresponsáveis. Alegadamente são “gestores”, “dirigentes”, “autoridades”. Na prática, são agentes que não têm risco real, sem pele no jogo, protegidos por estruturas tão grandes que absorvem o fracasso.
E quando ninguém paga pelos erros, os erros multiplicam-se.
No futebol, chamamos-lhe azar.
Na política, chamamos-lhe interesse público.
E depois ainda perguntamos porque é que nada melhora.
E desenganem-se. A verdade, incómoda, é esta: não estamos perante um sistema que falha.
Estamos perante um sistema que funciona exatamente como foi desenhado.
Centralizado. Protegido. Imune à disciplina real.
O futebol só torna isto visível porque é emocional. Mas o problema não começa no relvado — acaba lá.
E enquanto continuarmos a viver à espera de salvadores, a culpar terceiros e a aceitar monopólios como inevitáveis, vamos continuar sentados na bancada do circo, mas onde o palhaço somos nós.
A bater palmas, a reclamar do árbitro, a pagar o bilhete. A rebolar, quando nos mandam.
O problema não é gostarmos de futebol, o problema é aceitarmos este modelo em tudo o resto.
Porque no fim, é Portugal que perde. Sempre.
Perdemos tempo, riqueza e liberdade.
E não há nenhum novo treinador que venha resolver o problema. Porque o problema só se resolve com mais Liberdade. Com menos monopólios, mais concorrência, mais escolha, mais responsabilidade e menos, muito menos estado.
Sem isso, mudam os nomes, mudam as caras, muda o discurso — e nada muda.
Se queres sair do circo, não peças um palhaço melhor. Muda o espetáculo.
Assina pela criação do Partido Libertário.
Sai da bancada. Entra no jogo.




