Os Carros Elétricos são os Cavaleiros do Apocalipse
A vontade de devastar a Terra é grande, se passares 3 horas a tentar carregar.
“E vi surgir da terra uma besta, e ela tinha dois cornos como um cordeiro, mas falava como um dragão. E fazia grandes sinais, de modo que até fogo fazia descer do céu à terra, diante dos homens. E enganava os que habitavam na terra.” — Apocalipse 13:11-13
João, o Evangelista, estava claramente a descrever a rede pública de carregamento de veículos elétricos em Portugal.
Lamento transtornar o caro leitor com as minhas desventuras, mas não resisto a contar. Imaginem a cena: Sais de casa a uma hora razoável para carregar o carro elétrico antes de uma viagem longa. “Volto já”, disse.
Primeiro posto: ocupado, o segundo, ao lado, com o cabo cortado — não avariado, cortado. Vandalismo. Disseram-me que “já está assim há umas semanas”. Mas o posto continua marcado como “disponível” na app. Ninguém foi lá ver. Ninguém foi lá reparar. Ninguém quer saber. Esta malta não está no negócio da manutenção.
Meti-me no carro e fui a outro posto: a app garante que quando lá chegar, terei carregadores rápidos. Nunca confies em apps. Não há carregador rápido nenhum.
Move on. Terceiro posto: dois carregadores avariados, espera pelo único que funciona, o carro que já lá estava sai porque a carga parou a meio. Coloco o meu a carregar e alvíssaras, carrega. Mas parou a meio. Erro. Desliga, volta a ligar. Erro. Repete. Erro. DVL de novo, nem o Windows resiste a desligar e voltar a ligar 3 vezes. O carregador é uma besta mais sanguinária que o Windows, no entanto.
Quarto e quinto postos: erro imediato ao ligar — bug de comunicação entre o carro e a rede, que só se resolve depois de ligar a três carregadores lentos (dois estavam desligados, claro) em modo de paciência monástica, que desbloqueiam finalmente o erro e posso, finalmente, carregar os 15% de bateria que me faltavam para a viagem de amanhã
Baal e seus demónios riem-se, enquanto assistem a tudo em directo, nas profundezas do Hades. Jesus chorou.
Três horas. Cinquenta por cento de bateria. Quase 30 km percorridos.
Se estivesse a meter gasolina num carro, durante este tempo todo, teria metido para cima de 10.000 litros.
“Bem-aventurado aquele que persevera na provação, porque depois de aprovado receberá a coroa da vida.” — Tiago 1:12
O Tiago não tinha carro eléctrico, está-se a ver. Aleluia.
O Génesis do Esquema
No princípio, o Estado criou o subsídio. E viu que era bom — para quem o recebia.
Os programas de apoio à mobilidade eléctrica cobrem a totalidade do valor de aquisição e instalação dos postos de carregamento. Entre PRR, Fundo Ambiental, e os fundos europeus — o Estado dá dinheiro aos amigalhaços para instalar carregadores nas estradas. Instalar, nota. O operador instala, embolsa o subsídio, fica com o ativo no balanço.
E ao sétimo dia, descansa. E nunca mais voltou para fazer manutenção. Porque essa custa dinheiro, e não há subsídio, nem incentivo.
A receita real de utilização de um posto público é miserável. A taxa de utilização em Portugal é baixa — um posto rápido com dez carregamentos por dia é um posto bem utilizado, a maioria faz menos. Teoricamente, a tarifa OPC cobrada pelos postos inclui os custos de manutenção e disponibilidade dos pontos de carregamento. Teoricamente. Porque na prática, manter o posto operacional é custo puro, e o subsídio já foi recebido. O incentivo económico estava na instalação — não no serviço. Depois disso, o cabo pode muito bem estar cortado, que o operador não quer saber.
“Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” — Mateus 6:21
O tesouro estava no subsídio. Ninguém quer ter que fazer reparações no coração.
As Trombetas do Preço Real
Vendem-nos o elétrico com o engodo do preço de carregamento em casa. Mostram os 3€/100 km da wallbox doméstica nos anúncios e nas simulações dos concessionários, nas conferências de imprensa dos ministros com sorriso de salvadores da humanidade.
Mas não mostram o que acontece quando se sai de casa.
Num posto rápido público, um carro elétrico médio fica a gastar cerca de 9-10 €/100 km. Um carro a gasolina custa cerca de 11 €/100 km. Menos de dois euros de diferença — isto sem contar com o tempo perdido, a ansiedade, e a possibilidade permanente de chegar, no fim da bateria, e o posto estar avariado, vandalizado, ou ocupado. Nos postos ultrarrápidos de 150 kW, alguns operadores em Portugal cobram já 0,54 €/kWh. A esses preços, o elétrico já é mais caro que a gasolina, sem ambiguidade possível. Mesmo com os preços do Estreito de Hormuz fechado.
O carregamento barato é o de casa, à noite, na tomada doméstica, sem apps nem cartões nem taxas de plataforma nem entidades gestoras de rede de mobilidade. Simples, barato — e completamente inútil numa viagem superior a metade da autonomia real do carro. Sempre que precisares de carregar na rua, todos os sintomas de ansiedade começam a aparecer.
“Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem, e onde os ladrões minam e roubam.” — Mateus 6:19
A ferrugem, neste caso, são os cabos cortados nos carregadores. Os ladrões são todos os que compõem o ecossistema de CEMEs, OPCs, taxas EGME e plataformas de interoperabilidade que transformaram “ligar um cabo” numa pós-graduação em engenharia de sistemas, com a probabilidade de sucesso a ser inspirada na Regra de Born, e na Mecânica Quântica.
O Juízo Final do Regulador
O regulador desta alarvidade nacional conta postos instalados por 100 km de estrada. Não conta postos que funcionam quando lá chegas. É a mesma lógica do SNS a reportar camas de hospital sem contar enfermeiros ou médicos: o número fica bonito na apresentação de PowerPoint, o utente que se desenrasque perante São Pedro ou São Cristóvão.
O novo regime jurídico da mobilidade elétrica prometia transparência de preços e facilitar a instalação de postos. Mais facilidade para instalar. Glorioso. E para manter os existentes a funcionar? Silêncio. Administrativo. Sepulcral.
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos.” — Mateus 23:27
Os sepulcros caiados, em 2026, têm ecrã tátil, LED verde, e ligação à rede Mobi.E.
O carro elétrico é uma ideia com futuro. Mas será sempre o mercado a decidir quando chegou a hora desse futuro. Quando a tecnologia estiver amadurecida.
Não são burocratas em Bruxelas que vão decidir, à força de subsídios, quando é que uma tecnologia está pronta para o mercado.
Quando os subsídios forçam a adopção da tecnologia temos a infraestrutura pública de carga: inacabada, muito pouco fiável, mas financiada com o teu dinheiro, e entregue a operadores amigalhaços cujo incentivo desaparece no momento em que o subsídio lhes é depositado na conta.
Se há algo que os profetas, os economistas e os utilizadores de carro elétrico têm em comum, é a capacidade de prever catástrofes que ninguém quer ouvir.
“Tinha ouvidos para ouvir, mas não ouviu.” — Ezequiel 12:2
Acreditas que o Estado devia parar de subsidiar esquemas e deixar o mercado funcionar? Nós também. Conhece o Partido Libertário em partidolibertario.pt




