Quanto vale um voto? No Kentucky, 300$
Thomas Massie perdeu as primárias republicanas para ser o representante no Congresso pelo Kentucky. Massie já estava no congresso desde 2017, e agora não será reeleito, porque não vai concorrer (pelo menos como republicano).
Há anos que Massie incomoda o establishment com libertarianismo coerente, oposição cerrada a pacotes de ajuda externa sem controlo e exigência de transparência total, mas foi recentemente com exigência de divulgação dos ficheiros Epstein e a oposição à guerra de Israel (via EUA) ao Irão, que Don Trump o tomou de ponta. Na primária para escolher o candidato republicano pelo Kentucky às eleições do Congresso em Novembro, foi derrotado por Ed Gallrein, um ex-SEAL apoiado por Don Trump. E por Israel, claro.
Não foi uma derrota qualquer. Esta foi a primária para a Câmara dos Representantes mais cara da história dos EUA, com mais de 32 milhões de dólares gastos na campanha. No total, votaram cerca de 150.000 pessoas. Cada voto custou um valor absurdo de 300 dólares. Quem é que é suficientemente louco para gastar tanto dinheiro em eleições?
Grande parte veio de grupos pró-Israel, AIPAC e PACs alinhados com a agenda intervencionista — mais de 15 milhões só contra Massie. Na concessão, Massie ironizou: “Tive de ligar ao meu adversário para conceder, mas demorou a encontrá-lo em Tel Aviv.”
A piada revela quem manda.
Os números são cristalinos. Massie dominou entre os eleitores mais jovens (vantagem esmagadora nos 18-44 anos, especialmente 18-40). Gallrein arrasou entre os mais velhos, sobretudo acima dos 55/65 anos. O voto sénior pesou mais e decidiu.
Porquê? Porque esses eleitores vivem colados à Fox News — o canal inundado de anúncios pagos pela campanha contrária, financiados por dinheiro que não vem dos Estados Unidos.
Vou repetir, para que fique bem claro:
Um país estrangeiro pagou os anúncios que levaram um americano a não ser eleito (e outro a ser). Isto não é teoria da conspiração, são factos.
Antes, a indignação que os russos o faziam foi enorme. Na verdade, ficou provado que não houve interferência. Agora, que está provado que houve interferência de Israel, ninguém quer saber.
Ao contrário de Portugal onde a propaganda eleitoral tem alegadamente regras mais restritas, tempos gratuitos e limites, nos Estados Unidos os anúncios políticos são feitos na televisão e são pagos a peso de ouro. Quem tem mais dinheiro compra mais tempo de antena, mais repetições, mais impacto emocional. A TV não informa: vende o candidato que tem mais dinheiro. E os eleitores mais velho recebem a mensagem em loop até interiorizar. E votar.
Um pouco como vender pandemias ou virus mortais. Mas isso é outra história.
Isto prova que a televisão consegue vender qualquer produto, e que é a na televisão que se decide quem ganha. Não são as ideias. Não é o porta-a-porta. Não são os jovens que Massie mobilizou. Nem sequer as promessas de serviços gratuitos.
Quem decide é o ecrã, e nomeadamente o ecrã que está instalado na sala de estar no lar para a terceira idade. Porque chega a mais votantes.
Se é assim, e se em Portugal não existem anúncios pagos, quem será que decide quem aparece na televisão por cá? Quem controla os tempos de antena, as entrevistas “exclusivas”, os debates que são monólogos favorecidos, e os comentadores “isentos” que são membros de partidos? Os mesmos bancos, corporações, lobbies e interesses estrangeiros que financiam partidos? Ou o “serviço público” e os privados são milagrosamente imparciais? O mecanismo é o mesmo. Cá temos é o Rodrigo Guedes de Carvalho a dizer-nos para ter noção. É apenas mais humilhante.
Não é democracia. É um leilão. Altamente lucrativo.
Este sistema só existe porque compensa. Vale a pena gastar 32 milhões de dólares porque o retorno, através de negócios validados pelos eleitos, leis favoráveis, contratos, concessões e regulamentações, é muito superior. O investimento político rende dividendos na escala de milhares de milhões.
É por isso que os lobbies investem tanto. O Estado, com o seu poder de legislar, taxar e regular, cria oportunidades de lucro artificial que justificam a despesa.
A verdadeira saída para este problema é retirar poder ao Estado. É impossível regulamentar o dinheiro, ou os apoios, e achar que “nós é que somos sérios”.
Se o monstro Estado não puder legislar sobre temas que definem negócios de milhares de milhões de lucro, deixa de valer a pena gastar fortunas para controlar quem se senta no parlamento.
O poder do Estado vem dos impostos que nos retira à força. Reduzir drasticamente impostos reduz a corrupção, reduz o tamanho do bolo que vale a pena roubar e reduz o incentivo para comprar políticos.
Massie era incómodo precisamente por isso. Recusava alinhar. Votava contra o envio de milhares de milhões de dólares para o estrangeiro enquanto a dívida americana explode. Queria saber a quem é que eram traficados os seres humanos que Epstein e Ghislaine traficavam. Questionava o inquestionável. Por isso tinha de ser removido — não pelos eleitores locais, mas por uma avalanche de dinheiro de fora.
Isto repete-se em todo o lado: EUA, Europa, Portugal. As campanhas custam fortunas. Os partidos são máquinas financiadas por quem depois cobra em políticas e contratos estatais. Fingimos que “o povo decidiu”. O povo decide apenas entre as opções que o leilão permite.
Massie perdeu. A mensagem do establishment é clara: mija fora do penico e temos dinheiro suficiente para te substituir.
O eleitor médio acha que o voto dele tem algum valor. No Kentucky, valeu 300$. É muito dinheiro por um voto. Mas será?
Para um mandato de 4 anos, são 75€ por ano. 6,25€ por mês.
É o preço de um pack de 24 rolos de papel higiénico dupla folha.
Serve para o mesmo.




Não só é a população 55+ (sobretudo boomers e os GenXers mais velhos) norte-americana a mais colada à TV, como também é aquela que mais beneficia do status quo ... todo o seu estilo de vida dependeu e depende do excepcionalismo norte-americano dentro e além fronteiras ... a população mais jovem já utiliza outros canais e tem sofrido na pele o "egocentrismo" das gerações mais velhas ...